Não faltam histórias de grávidas que foram tratadas com grosseria em filas, meios de transporte, e até hospitais... eu fico abismada como a doença coletiva urbana deixa as pessoas tão hostis. É impressionante a falta de noção de certas pessoas. Isso pra não dizer falta de educação, respeito, humanidade, ética e por aí vai a lista.
Passei por duas situações semana passada que ilustram bem a mentalidade podre das pessoas. Mas também outras ilustram que sempre tem raríssimas e agradáveis exceções, que sempre surpreendem.
Abrindo a ala dos otários, a mulher que furou na minha frente a fila do caixa preferencial (sem ser nem idosa nem deficiente física nem estar com criança de colo) e ainda retrucou: "GRAVIDEZ NÃO É DOENÇA". Claro que isso rendeu um escândalo, eu fiquei puta da vida e falei em alto e bom tom pro mercado inteiro ouvir que gravidez não era doença, mas que a falta de educação dela era doença sim, e que eu tinha direito a passar no caixa antes dela. Acho muito chato fazer esse tipo de coisa mas foi mais do que necessário, fiz de propósito pra que servisse de lição a ela. Aquela mulher mereceu o vexame. Quanto a mim, não importa se eu paguei mico ou não. A atendente do caixa, claro, não deixou a mulher passar: mais uma vergonha que ela não precisava ter levado pra casa. Gente, respeitar o direito das pessoas não custa nada. Acho que essa daí aprendeu.
No dia seguinte, às 18h... as pessoas no metrô lotado ignoravam uma grávida (eu) em pé se equilibrando no meio do vagão. Depois do episódio desagradável da fila do caixa, eu já tinha desistido de brigar pelo meu direito. Não é algo pelo qual eu deveria ficar exigindo toda hora, e extrair alguma educação daquelas pessoas seria muito difícil. Por que as coisas não funcionam naturalmente? Fiquei ali quietinha, afinal a viagem estava tranqüila. De repente veio uma senhora de seus 70 anos, atravessou o vagão e me disse: "Moça, tem um lugar ali pra você". Era o assento dela, e eu não quis aceitar. Mas ela fez questão, e falou bem alto no vagão: "Pode sentar, ninguém mais levantou pra você, esse povo não tem educação. Sempre vejo as grávidas em pé e as pessoas nem ligam. Vai que a mulher cai ou desmaia, isso faz mal pro bebê". As pessoas continuaram ignorando, óbvio...
A mulher da fila no dia anterior era uma pessoa considerada normal, de classe média-alta, tinha um filho já adulto que estava com ela. Pelo pré conceito social, uma mulher assim seria uma cidadã digna, educada, civilizada. Ela deve ser bem tratada, mas não sabe em tratar os outros.
Já a senhora do metrô poderia estar aposentada mas precisa continuar trabalhando, deve ter filhos, netos, desce na última estação do metrô num bairro considerado favela. É humilde e simples e já deve ter sido muito humilhada pela sua condição socioeconômica. As pessoas que respeitam a mulher da fila pela sua aparência são as mesmas que tratam a esta senhora como um pária.
Isto é só pra ilustrar um pouco do que todo mundo já sabe: as pessoas estão cada vez piores, o mundo cada vez mais insano. Se eu for levar em consideração somente atitudes ridículas dos outros, eu ficaria desesperada com o mundo em que o meu filho vai nascer. Mas, sem exageros, a atitude daquela senhora ainda me dá esperanças de que a coisa tem jeito, sim.